A maior vitória de Bia Haddad Maia
Por Mario Sérgio Cruz
maio 3, 2017 às 9:00 pm
Beatriz Haddad Maia celebrou a vitória mais expressiva de sua carreira nesta quarta-feira (Foto: TK Sparta Praha/Pavel Lebeda)

Beatriz Haddad Maia celebrou a vitória mais expressiva de sua carreira nesta quarta-feira (Foto: TK Sparta Praha/Pavel Lebeda)

Não há dúvidas de que a vitória de Beatriz Haddad Maia sobre Samantha Stosur nesta quarta-feira foi a mais expressiva de sua carreira. Mais do que a boa vitória por 6/3 e 6/2 diante da ex-top 5, Bia teve uma atuação consistente e teve disciplina tática durante a partida válida pelas oitavas de final do WTA de Praga.

A paulistana soube se aproveitar da inconsistência da australiana e não quis bater na bola a qualquer custo. Ainda que Bia seja uma jogadora agressiva, ela se manteve firme do fundo de quadra e esperou o momento certo para dominar e definir os pontos. “Joguei muito sólida e tranquila, buscando ponto a ponto. Não deixei ela (Stosur) jogar”.

Outro destaque fica para o desempenho de Bia no saque. Ela colocou 69% de primeiros serviços em quadra e venceu 31 dos 38 pontos jogados nessas condições. Depois de ter sofrido uma quebra no set incial, ela fez uma segunda parcial bastante eficiente com apenas cinco pontos perdidos em seus games de serviço e enfrentando break points apenas no momento de sacar para o jogo.

Como já havia mostrado no fim do ano passado, quando venceu dois torneios ITF nas quadras duras americanas de Scottsdale e Waco, Bia tem lidado bem com os pontos importantes de seus jogos e saído de situações adversas, como na virada sobre a croata Donna Vekic na última rodada do quali na capital tcheca. Em recente entrevista ao TenisBrasil, ela destacou o fortalecimento no lado mental e o trabalho de meditação que tem feito.

“Introduzi aos poucos meditação sim desde o início do ano [passado] e com certeza, isso reflete dentro e e fora de quadra”, explicou. “Esse poder mental de poder jogar cada ponto é incrível! Estou buscando apenas isso, competir melhor, independente de estar 4/0 acima ou abaixo. São apenas pontos e isso acontece todo dia, em todos os torneios. Isso tem que ser normal para nós que jogamos tênis”.

Bia já venceu um WTA de duplas este ano, no saibro de Bogotá, ao lado da argentina Nadia Podoroska.

Bia já venceu um WTA de duplas este ano, no saibro de Bogotá, ao lado da argentina Nadia Podoroska.

Novidades na chave – Bia já igualou sua melhor campanha na WTA, que foram as quartas no Rio Open de 2015, quando ela esteve perto de eliminar a favorita Sara Errani. Ela vai enfrentar nesta quinta-feira a tcheca Kristyna Pliskova, que é a única com mais de 20 anos restante na parte de baixo da chave em Praga. A croata Ana Konjuh e a letã Jelena Ostapenko, ambas de apenas 19 anos, seriam possíveis rivais em eventual semifinal.

Histórico de lesões – Muito dessa evolução se dá num momento em que ela não passa por lesões graves. Ela conseguiu jogar toda a temporada passada sem ter nenhuma pausa para tratar de problemas físicos. Já neste ano, ela chegou a adiar seu início de temporada para fevereiro por conta de um acidente em casa, mas nada que efetivamente comprometesse o ano.

Mas com apenas 20 anos, ela já precisou dar pausas significativas na carreira. Uma queda em quadra durante um ITF em Campinas em julho de 2013 causou uma fratura na cabeça do úmero no ombro direito. À época houve um pequeno descolamento na cápsula anterior e não havia necessidade de operar, mas isso se agravou no futuro.

Por ter ficado mais de três meses sem jogar ou realizar exercícios físicos, ela também não pôde tratar da hérnia de disco que tinha e sentiu muitas dores quando tentou voltar às competições, em outubro daquele ano. Bia estava nos Estados Unidos para disputar um ITF em Macon e voltou às pressas ao Brasil para realizar uma artroscopia na coluna lombar com o doutor Guilherme Meyer. Ela afirma que desde a intervenção, nunca mais foi incomodada pela hérnia.

Já em 2015, o problema no ombro voltaria a incomodá-la e a impediu de disputar a medalha de bronze durante os Jogos Pan-Americanos de Toronto, em agosto. Ela precisou passar por nova cirurgia para sanar de vez o problema causado pela queda em Campinas, dois anos antes, e só voltaria a jogar em janeiro do ano seguinte.

Campanha em Praga já garante o melhor ranking da carreira para Bia (Foto: TK Sparta Praha / Pavel Lebeda)

Campanha em Praga já garante o melhor ranking da carreira para Bia (Foto: TK Sparta Praha / Pavel Lebeda)

Melhor ranking da carreira – Nas últimas duas semanas, Bia vem superando seu recorde pessoal no ranking. Durante muito tempo, sua melhor marca foi o 148º lugar estabelecido em agosto de 2015, pouco antes de seu afastamento para operar o ombro. Há nove dias, ela apareceu na 146ª colocação e ganhou mais dois postos na última segunda-feira, beneficiada por descontos de suas adversárias diretas.

As cinco vitórias obtidas em Praga já garantiram 78 pontos para ela, sendo 60 na chave principal e outros 18 pelo quali. Com apenas cinco pontos a defender na semana, Bia já deve aparecer entre as 115 primeiras colocadas e uma eventual vaga na final pode dar-lhe uma vaga inédita no top 100.

Brasileiras no top 100 – Sete brasileiras já estiveram no top 100 do ranking feminino, que foi instituído em 1975: Vencedora de sete títulos de Grand Slam entre 1959 e 1966, Maria Esther Bueno foi nomeada número 1 antes da criação do ranking, e tem como melhor marca na Era Aberta o 29º lugar em 1976. A gaúcha Niege Dias foi 31ª do mundo em 1988, a pernambucana Teliana Pereira chegou à 43ª posição há dois anos, Patrícia Medrado foi 51ª em 1986, Cláudia Monteiro foi 72ª em 1982, Andrea Vieira foi 76ª em 1989 e Gisele Miró foi 99ª em 1988.

Desde 89 – Nos últimos anos, sempre que a gente ia pesquisar uma façanha do tênis feminino brasileiro, caímos em um “desde 1989″. Foi assim quando Teliana Pereira avançou uma rodada em Roland Garros em 2014, marcando a primeira vitória brasileira em um Grand Slam desde aquele ano. Ou ainda quando Teliana e Bia obtiveram duas vitórias brasileiras no WTA de Bogotá em 2015 (vencido por Teliana).

Como cita a matéria de hoje do Felipe Priante para o TenisBrasil, a vitória de Bia contra Stosur foi a primeira de uma brasileira contra uma top 20 desde 1989, quando Andrea Vieira passou por três jogadoras entre as vinte melhores: Conchita Martinez, Hana Mandlikova e Helena Sukova. A vitória sobre Conchita, aliás, é a última de uma brasileira contra top 10. Caso uma atleta nacional volte a repetir a façanha, teremos outro “desde 89″.


Comentários
  1. Carlos Augusto Freire Medeiros

    71 titulos, primeira do ranking de 1959, hall da fama do tenis, 3 titulos de wimbledon e 4 do US open, grand slam de duplas de 1960, dizer que Maria Esther Bueno foi 29 em 1976 só pode ser uma piada de vocês!

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    1. Mario Sérgio Cruz

      Em nenhum momento pensei em diminuir os feitos da Maria Esther. Ela é a maior tenista que o Brasil já teve e foi nomeada a número 1 do mundo antes da Era Aberta. Sempre quando é citado o 29º lugar alcançado em 76, é obrigatório enfatizar que esta foi a melhor após a instituição do ranking, criado no ano anterior.

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      1. SBF Prado Lima

        Tá muito claro o que você quis dizer, Mário.

        Dá uma conferida se a Judith Wiesner não era Top 20 em 1989. A Dadá ganhou dela na semana seguinte a da vitória sobre a Conchita.

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  2. Pieter

    Parabéns pela matéria!
    Bela homenagem à Bia. Sem dúvida que ela merece.
    Esperamos que ela ainda nos dê muitas alegrias no tênis.

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  3. Ricardo B. de Carvalho

    Muito bom Mario Sergio. Nunca via a brasileira jogar, mas a partir de agora a curiosidade é bem maior. Bem , quando ela afirma que “não deixei ela jogar”, não está sendo um tanto petulante? O placar foi fácil. Talvez voce já tem a informação do que a campeã australiana comentou.

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