Ostapenko e Anabel, um título a quatro mãos
Por Mario Sérgio Cruz
junho 11, 2017 às 1:08 pm

 

 Ostapenko contou com a ajuda de Anabel Medina Garrigues durante a temporada de saibro e chegou ao título de Roland Garros.


Ostapenko contou com a ajuda de Anabel Medina Garrigues durante a temporada de saibro e chegou ao título de Roland Garros.

As duas semanas fantásticas de Jelena Ostapenko em Paris foram coroadas com o primeiro título da jovem letã de 20 anos. O troféu foi logo o de um Grand Slam, em Roland Garros, no saibro, justamente o piso em que a letã tinha os resultados menos expressivos. Tamanha evolução em tão pouco tempo só foi possível porque Ostapenko encontrou a pessoa certa no momento certo para trabalhar.

A primeira vitória da letã numa chave principal de WTA no saibro veio apenas em maio do ano passado, em Roma. E antes de Roland Garros, ela havia vencido apenas onze jogos na elite do circuito neste piso, sendo que quatro delas haviam acontecido em Charleston, onde a superfície de har-tru (saibro verde) torna o jogo mais rápido e adaptado ao seu estilo que o tradicional saibro vermelho.

Disposta a evoluir no piso em que tinha mais dificuldades, Ostapenko buscou ajuda da espanhola Anabel Medina Garrigues, veterana de 34 anos e que está sem jogar desde Wimbledon no ano passado por conta de uma lesão no ombro. Dos onze títulos de WTA conquistados pela espanhola, dez foram no saibro, o que faz dela a terceira jogadora em atividade com mais conquistas (Serena Williams tem 13 e Maria Sharapova tem 11).

A parceria seria apenas para os torneios no saibro e representaria a terceira colaboração entre Anabel e Ostapenko. Elas já haviam trabalhado juntas durante a pré-temporada de 2015 em Valência, mas a espanhola tinha seus próprios compromissos como jogadora e a parceria não pôde seguir em frente. Um segundo teste veio no fim do ano passado, na perna asiática da temporada, já com a veterana inativa por lesão.

Marcada por um estilo de jogo agressivo, com números elevados de winners e erros não-forçados, Ostapenko precisava encontrar consistência no fundo de quadra e escolher o momento certo de atacar para fazer seu jogo ficar ainda mais eficiente. Dois exemplos claros foram as quartas de final em Paris contra Caroline Wozniacki, quando fez 38 a 6 em winners ou a final diante de Simona Halep com 54 bolas vencedoras diante de apenas 8 da romena. Mas tamanho volume de jogo não veio só batendo cada vez mais forte na bolinha.

Quando superou Wozniacki nas quartas, anotando sua quarta vitória sobre a dinamarquesa, Ostapenko falou sobre o plano tático. “Em minha mente, toda vez que eu jogar contra ela, eu só sei que tenho que ser agressiva, mas não ir para a definição logo na primeira bola, porque eu tenho que ser consistente”, comentou a letã que terminou aquele jogo com 50 erros, mas 25 deles foram no primeiro set, com muito vento em quadra, e os outros 25 distribuídos entre as duas parciais seguintes, quando ela errou bem menos e acertou mais bolas.

A combinação entre o jogo agressivo da letã com a consistência do fundo de quadra também foi abordada por Anabel em entrevista ao site espanhol Punto de Break. “Ela quer acabar com todos os pontos em dois golpes e você tem que explicar para ela que é preciso se adaptar à adversária e à superfície, aprender a construir os pontos, jogar de forma mais organizada e ser paciente para cometer menos erros. Ela é apenas uma menina e precisa trabalhar nisso”.

E até onde ela pode chegar? Depois de saltar do 47º lugar para a 12ª posição e conquistar seu primeiro título, Ostapenko já pensa grande “Estou muito feliz, mas ainda tenho que melhorar como jogadora. É claro que eu gostaria de ganhar todos os Grand Slam. É meu objetivo, mas vou tentar trabalhar muito agora”.

Velocidade – Um dado que chamou a atenção durante a campanha de Ostapenko em Roland Garros foi a velocidade de seus golpes de forehand. A média de 76 mph (ou 122 km/h) consegue ser mais alta que as do número 1 do tênis masculino Andy Murray com 73 mph (ou 116 km/h). A jovem jogadora falou um pouco sobre seu incrível volume de jogo após a final do último sábado.

“Eu acho que ninguém me ensinou, é apenas a maneira como eu jogo, minha característica é assim. Então eu quero bater forte na bola. Acho que se eu realmente tiver um bom dia e estiver batendo muito bem, acho que qualquer coisa é possível”.

Geração 97 – Ostapenko é mais uma jogadora que vem da promissora geração de 1997. No mesmo ano nasceram a suíça Belinda Bencic, a russa Daria Kasatkina, a croata Ana Konjuh, a japonesa Naomi Osaka e a russa Natalia Vikhlyantseva. Todas elas já estiveram entre as cem melhores do mundo e obtiveram resultados expressivos na WTA.

Bencic já ganhou de quatro top 10 (incluindo Serena Williams) no mesmo torneio e chegou ao grupo das 10 primeiras antes de sofrer com lesões no punho e na região lombar (hoje ela é 118ª), Kasatkina (28ª) conquistou o Premier de Charleston numa final contra a própria Ostapenko, Konjuh (30ª) venceu seu primeiro WTA aos 17 anos em Nottingham e foi às quartas no US Open, Osaka (55ª) decidiu o forte Premier de Tóquio no ano passado , enquanto Vikhlyantseva (74ª) fez semi no Premier de São Petersburgo. Veremos muitas jogadoras dessa faixa etária brilhando nos próximos anos.

 


Comentários
  1. George

    Cara, te parabenizo por outro excelente texto! Acho muito bacana as informações que vc traz sobre as novas gerações, são dados que não vemos nos outros sites, o que mostra que foi fruto de muita pesquisa.

    Reply
  2. Clayton

    Que bela surpresa a Ostapenko. Tem tudo pra evoluir ainda mais. Como essa menina bate forte na bola, dá gosto de ver! Parabéns Mario, por mais esse belo texto. É muito importante esse espaço destinado às promessas.

    Reply
  3. Bruno Macedo

    Parabéns para a garota!!!
    A menina tem o mental forte , pois saiu de situações muito complicadas no jogo.
    O tênis feminino precisa de grandes talentos, precisa de batalhas épicas como as q acontecem no masculino, pois estas coisas trazem graça para a competição. Que essa menina chegue para ficar!

    Reply
  4. josé Coutinho

    Sobre a geração 97: Entendo o seu entusiamo com estas jovens. E claro que as veremos ganhando mais, esta é a tendencia de renovação de todo esporte de alta performance. Mas nenhum feito das demais se compara ao da jovem Letã. Ganhar um Major com tão pouca idade é de outro nível. Guga que o diga; Aliás, as coincidências com o nosso campeão são incríveis!
    Ostapenko entrou no meu hall de atletas favoritas junto com Sharapova, Bia e Muguruza no tênis. Torcerei muito por ela agora.

    Primeiro post que leio seu, por indicação do Dalcim, porlá já sou assíduo. Gostei do que li.

    Parabéns Mario! até a próxima.

    Reply
    1. Mario Sérgio Cruz

      Obrigado! Volte sempre ao blog.
      Realmente os feitos das demais meninas não se comparam à conquista de um Grand Slam. O mais próximo seria o da Bencic, por ter sido em um torneio grande (Toronto, onde conquistou o título) e pelo nível das adversárias que superou durante aquela semana.

      Reply
  5. HIROITO ONOTERA

    Se tiver cabeça no lugar e mentalidade de campeã, a Ostapenko tem tudo para se tornar uma das grandes do tênis. No Australian Open ela já havia demonstrado seu enorme potencial, quando fez excelentes partidas e saiu nos detalhes para a Pliskova, muito por causa da inexperiência. Seu futuro realmente pode ser imenso, até porque ela têm claramente muitos pontos a evoluir no seu jogo, sobretudo, jogo de rede, que é fraquíssimo e saque. Mas a potência de seus golpes e a capacidade de dar winner atrás de winner é impressionante, lembrando até a ‘inumana’ Serena. No terceiro set da final ela transformou uma jogadora excelente e tarimbada como a Halep em uma mera expectadora de sua incríveis bolas.

    Reply
  6. Túlio Oliveira

    Muito merecida a conquista desta jovem. Jogou sem medo e ganhou porque propôs o jogo ao contrário da romena que, apesar de não ser uma jogadora muito agressiva, se mostrou muito apática e defensiva (Vide Wozniacki). Mas essa postura muito se deu pelo sufoco que Ostapenko causou com seus potentes golpes. Wimbledon está aí e o estilo de jogo dela é interessante para a grama. Quem sabe não tem mais por vir. Parabéns pelo post, Mario.

    Reply
  7. Pieter

    Parabéns pelo post!
    Você considera que a Ostapenko poderá vir a ser uma número um do mundo, no futuro?
    E qual o potencial, em termos de ranking, da nossa Bia Haddad? Até onde ela pode vir a chegar?

    Reply
  8. Alexandre Maciel

    Cara, como dá gosto de ver a Ostapenko jogando. Muito agressiva e partindo pros winners sem medo. Saindo um pouco da mesmice do tênis feminino que ultimamente tem se baseado em muita movimentação de pernas e pouca iniciativa para definir os pontos.

    Por ser jovem, tem muito ainda a evoluir e pode se tornar perigosa nas quadras rápidas.

    Reply
  9. Lucas Pires

    Não é uma correção e sim uma observação. A média da Ostapenko ser maior que o do Murray não significa que ela bate mais forte que o Murray, mas que o Murray varia mais a velocidade do forehand.

    Reply
    1. Mario Sérgio Cruz

      Correto. Fizeram uma medição parecida com essa durante o Australian Open e foi constato que a média de velocidade da Madison Keys superava a de jogadores do masculino exatamente pela mesma situação. Como ela batia sem muita variação, o resultado era alto.

      Reply
    1. Mario Sérgio Cruz

      É muito difícil afirmar se ela pode ou não ser número 1. Potencial ela tem de sobra e ainda tem muito a evoluir em seu jogo.

      Além disso, a gente não sabe como ela vai reagir à realidade de ser uma campeã de Grand Slam, porque a vida da pessoa muda muito. Algumas jogadoras conseguem manter o nível, mas outras caem de rendimento.

      A gente viu isso em 2011 com algumas campeãs de Slam que caíam em estreias de torneios (e Grand Slam) seguintes, exceção feita à Azarenka, e até com a Muguruza no ano passado que não ganhou mais nenhum título desde então. Seria o caso de aguardar o restante dessa temporada, por exemplo.

      Quanto à Bia, ela mesma não gosta de trabalhar com perspectivas de ranking e respeito a posição dela. Entrou no top 100 só agora, mas os resultados recentes já a colocam perto das 60 melhores da temporada. Caso mantenha um bom nível e não sofra com lesões, tem chances de terminar o ano entre as 50.

      Reply
Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

Comentário

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>