Monthly Archives: novembro 2013

O jogo da cobiça
Por Chiquinho Leite Moreira
novembro 22, 2013 às 12:43 pm

Alguns dos principais jogadores do circuito vivem reclamando do calendário. Dizem que é exigente demais, não se olha para o lado dos atletas, impondo mudanças de pisos, fuso horários, continentes etc e tal. Mas nem bem os tenistas saem de férias e começam a cruzar o planeta para jogos de exibição. A melhor definição para estas partidas talvez fosse jogos da cobiça, com o desejo desmedido pelo dinheiro, pelos bens materiais, glórias.

Rafael Nadal é uma voz forte contra o calendário. Recentemente ensaiou uma briga com Roger Federer, insinuando que o suíço só olhava para o lado dos dirigentes, esquecendo-se do verdadeiro objetivo de defender os jogadores. O espanhol vive sob ameaça de lesões. Mas não se assusta com isso. Em dias de férias enfrenta Novak Djokovic, em encontro que a imprensa chilena definiu como de alto nível. Ou seja, os dois tenistas empenharam-se em quadra… correram, exigiram do físico.

Existe uma verdade no esporte de alto nível: descansar também é treino. O corpo tem limites, ainda mais para quem esteve afastado das quadras por sete meses para cuidar do joelho. Lembro que quando Nadal esteve em São Paulo para o Brasil Open chegou a dar a impressão de que estava com seu futuro ameaçado. Bem… o restante da temporada, com o tamanho sucesso do espanhol, deixou claro que tudo não passava de sua velha mania de reclamar.

Nem é preciso dar exatas cifras para definir que a excelente temporada de Nadal engordou bastante a sua já polpuda conta bancária. Nem tenho as cifras exatas dos cachês acertados para a turnê na América do Sul para confirmar o valor da cobiça.

Este pecado capital da avareza, a cobiça, não ameaça levar apenas Nadal para o purgatório. Recentemente Novak Djokovic, exausto após um final de temporada dos mais impressionantes, abriu mão de participar da partida de duplas – atenção duplas – no confronto final da Copa Davis. A Sérvia perdeu o título para a República Tcheca, não só por isso, é claro, mas a presença do número dois em quadra poderia sim ter mudado o rumo da história. Mas é certo que Nole não aguentava mais jogar. A última notícia que li, ele venceu Nadal ’em jogo de alto nível na exibição em celebração à despedida do medalhista de ouro chileno Nicolas Massu’.

Os argumentos são muitos. Há algumas semanas vi uma entrevista do preparador físico Eduardo Farias – da equipe brasileira da Copa Davis – dizendo que um dos motivos da temporada instável de Roger Federer em 2013 foi motivada pelas exibições na América do Sul e, consequentemente, sem plenas condições de realizar uma boa pré temporada, atualmente algo imprescindível para o atlético tênis.

Não tenho nada a reclamar da turnê de Federer ao Brasil. O Ginásio do Ibirapuera esteve lotado todos os dias. O clima da torcida estava eletrizante, as partidas de encher os olhos e não tenho dúvidas tornou-se um incentivo para o nascimento de novos tenistas. Particularmente curti muito o evento, especialmente pelo fato de Federer ter participado de uma edição especial do Ace Bandsports, quando concedeu a única entrevista ao vivo no Brasil. Isso graças ao pessoal da Koch Tavares, que operou o milagre.

É claro que Federer levantou um bom cachê. O mesmo deve estar acontecendo com Nadal e Djokovic. Mas será que uma vida longa dentro das quadras, em milionários torneios ao redor do mundo não seria suficiente? Ou será que a cobiça fala mais alto?

A nova realidade do tênis brasileiro
Por Chiquinho Leite Moreira
novembro 18, 2013 às 1:57 pm

O ranking desta semana – no encerramento da temporada – revela uma nova realidade do tênis brasileiro. Na ATP não há nenhum jogador entre os cem primeiros. Portanto, sem vagas garantidas na chave principal do Aberto da Austrália. Em compensação, na WTA Teliana Pereira, com a 97a. posição, está apta a encerrar um jejum de mais de 20 anos, sem mulheres na chave de um Grand Slam. Outra boa notícia é que, pelo menos em duplas, são dois jogadores entre os dez. Bruno Soares poderá ser cabeça dois em Melbourne e Marcelo Melo, o quatro.

Este cenário, porém, revela boas perspectivas, sem cometer o pecado do excesso de otimismo. Thomaz Bellucci, nestes últimos torneios, recuperou seu bom tênis e confirmou o potencial para estar numa posição de elite no tênis internacional. Sinceramente gostaria de vê-lo no início do próximo ano na Oceânia, se o seu abdômen permitir.

Também vejo com bons olhos a nova geração. Guilherme Clezar não passou para as semifinais do ATP Challenger Finals, no Clube Hamonia, em São Paulo, mas isso não tira seu valor. É, assim como Bellucci, um jogador com tênis moderno, capaz de alcançar boas colocações no ranking mundial. Mais atrás está Tiago Monteiro. Ele tem uma característica cada vez mais rara nos dias de hoje mas de extrema eficiência, o toque de bola, a mão. E isso para um canhoto é ainda mais interessante.

Para Teliana Pereira o atual ranking é um prêmio pela sua perseverança e dedicação. Como recompensa pode, enfim, entrar na sonhada chave de um Grand Slam. Afinal, a carreira de um tenista não se completa plenamente sem, pelo menos, uma participação em um torneio desse nível.

Nas duplas uma realidade. Tanto Bruno Soares como Marcelo Melo têm sim a possibilidade de concretizar o sonho de um título de duplas masculina num Grand Slam. Não seria surpresa se isso já viesse na Austrália. Afinal, os dois brasileiros estão cheios de confiança. E isto é um ingrediente eficaz quando se entra em quadra.

Nota 10 para as duplas
Por Chiquinho Leite Moreira
novembro 11, 2013 às 1:53 pm

Chamou atenção Bruno Soares dar nota dez para sua campanha em Londres, sem, no entanto, ter conquistado o título. Mas o que ele, ao lado de Alexander Peya, e Marcelo Melo, com Ivan Dodig, fizeram não só no Finals, como também ao longo de todo o ano, merece sim nota máxima. É claro que viria com ‘louvor’ com uma taça na mão. Fica a boa perspectiva para 2014, com uma possibilidade cada vez mais real da conquista de um troféu de Grand Slam.

Os mineiros voltaram a dar vida a uma modalidade que, infelizmente, andou meio desprezada, em razão da não participação constante dos grandes nomes das simples. O circuito está tão exigente que seria humanamente impossível jogadores como Rafael Nadal, Roger Federer, Novak Djokovic, Any Murray jogarem simples e duplas. Hoje, as duas modalidades exigem treinamentos específicos. Portanto, não seria apenas o compromisso com os jogos oficiais.

Tanto a derrota de Bruno Soares como a de Marcelo Melo poderiam sim ser vitórias. O fato de na ATP não se jogar mais com vantagem e sem terceiro set tornou o jogo uma verdadeira loteria. Os defensores deste sistema dizem que o jogo ficou mais dinâmico, mais atraente até mesmo para a TV. Mas, sinceramente, ainda gosto mais o espírito que sempre norteou as regras do tênis: a necessidade de confirmar os pontos. Diminuir ao máximo o fator ‘sorte’.

Enfim, ainda há oportunidades para todos. Se na ATP existe este sistema dinâmico, na Davis e nos Slams a tradição do esporte está mantida. E será dentro das regras conservadoras que fica a torcida para Melo e Soares em 2014.

ATP: associação de classe ou empresa lucrativa?
Por Chiquinho Leite Moreira
novembro 5, 2013 às 12:27 pm

Há muito tempo que se discute os atuais rumos da ATP e seu verdadeiro e real propósito. A associação nasceu em setembro de 1972 com a firme determinação de proteger os interesses dos tenistas masculinos. O primeiro presidente foi Cliff Drysdale, o famoso Jack Kramer (que se transformaria em sinônimo de raquete por uma boa época) criou o ranking, fugindo ao controle da ITF (a Federação Internacional. A associação conquistou respeito ao ser o primeiro esporte profissional a instituir um programa de controle de doping.

Ao longo dos anos muitas mudanças e capítulos marcantes como a famosa reunião dos tenistas no estacionamento do US Open. Um verdadeiro grito de independência da associação.

Esta voz forte dos tenistas perdeu volume ao longo dos anos. As decisões não parecem atender o princípio da associação de ‘proteger os interesses dos jogadores’ e o sucesso da ATP hoje é de uma empresa lucrativa.

Este assunto ressurge e ganha força quando os líderes do ranking, o número um Rafael Nadal, e o número dois, Novak Djokovic revelam descontentamento com os rumos do ATP Finals. A competição nasceu com o interesse de desenvolver a modalidade, levando o melhor do tênis a diversas praças. Mas agora, como diria Caetano (nem sei se os membros do Procure Saber autorizam esta citação) ‘a força da grana’ praticamente fixou o Finals em Londres.

Os motivos são vários. A arena O2 é ótima. A bilheteria excelente. Os direitos de transmissão também e o patrocinador, Barclays, nem se fala. Não dá para reclamar da lucratividade.

Só que os interesses dos jogadores ficaram para segundo plano. Rafael Nadal reclama do imperialismo do piso rápido para esta competição. Não sem interesses próprios, gostaria de ver o Finals sendo jogado no saibro. Longe de defender os interesses do Brasil, o Rio tentou ser a sede do evento. E neste caso o saibro seria a superfície. Mas a ATP, embora tenha recebido o dinheiro do patrocínio da cidade do Rio, não fez força para levar pela primeira vez a competição para a América do Sul. A justificativa é que os lucros no Brasil não seriam os mesmos e a compensação financeira só viria depois de alguns anos. Ora, o Finals nasceu com a vocação nômade. Esteve em Tóquio, Paris, Barcelona, Boston, Melbourne, Estocolmo, Houston, Nova York, Frankfurt, Hannover, Lisboa, Sydney, Xangai e por aí vai…

Seria importante atender também os interesses de Djokovic. Imaginem o incentivo ao desenvolvimento do esporte que não se teria com a disputa em Belgrado. Como seria bom também ser disputado em outra superfície. Mas quem será que manda na ATP?