Monthly Archives: maio 2017

As novas perspectivas para Roland Garros
Por Chiquinho Leite Moreira
maio 23, 2017 às 6:07 pm

Os resultados do Masters 1000 de Roma mudaram as perspectivas para Roland Garros. Até então, Rafael Nadal era  “o favorito”. Agora segue como forte candidato, mas passa a ser um dos prováveis vencedores em Paris.

Um Grand Slam tem características próprias. Ninguém vence por acaso. E acredito nisso até mesmo no já antigo caso de Gaston Gaudio superando Guillermo Coria numa final. O jogo em melhor de cinco sets, no saibro, é uma constante provação. Nada se revolve facilmente e especificamente em Paris exige uma boa adaptação. Nos 15 dias do torneio, normalmente uma semana chove – quadras pesadas – e na outra bate sol – superfície mais rápida -.

Este parágrafo acima aparece apenas como uma advertência. O fato de Alexander Zverev ter conquistado Roma, com vitória sobre Novak Djokovic na final, não quer dizer que possa repetir a mesma atuação em Paris. Nem mesmo Dominic Thiem pode ser apontado como rei do saibro, só porque (e por tudo isso) derrotou Rafael Nadal, nas quartas de final do Foro Itálico. A experiência num Grand Slam é importante. São raros os casos como os de Gustavo ‘Guga’ Kuerten ou Michael Chang.

Ainda assim, a nova geração é bem vinda e deixa o Aberto da França com perspectivas de maiores emoções. A chave fica ainda mais importante e gostaria de ver o mais rápido possível o sorteio, marcado apenas para sexta-feira. Esta ansiedade já não pega muito pelo lado feminino. Afinal, sem Serena Williams o torneio está mais aberto do que nunca.

Existe uma verdade no tênis. Os grandes jogadores são vulneráveis em rodadas iniciais. Mas a partir das quartas de final – segunda semana do Slam – tudo fica bem mais complicado. E, por isso, acredito que teremos uma primeira semana das mais emocionantes e talvez surpreendente.

As condições climáticas causam grande interferência em Roland Garros. Ano passado tivemos um torneio dos mais chuvosos. Mas vale lembrar que a quadra central em Paris não tem o nome de Philippe Chatrier por acaso. Ele foi o responsável por uma mudança revolucionária ha história dos quatro Grand Slams. Ex-tenista e como presidente da Federação Francesa por 20 anos foi importante na modernização e no maior interesse mundial por estas competições.

Nos meus primeiros anos de cobertura de Roland Garros, em Paris, testemunhei o interesse de Chatrier em popularizar o esporte. Para isso, precisaria abrir espaço e tirar das mãos de uma elite – que, de certa forma, ainda existe – o acesso a estas competições. Teve uma ideia ousada: dividir o brilho da central. Assim Roland Garros foi o primeiro torneio ater um segundo palco importante, imponente, como a quadra A, rebatizada anos depois como Suzanne Lenglen.

Logo depois os outros Slams seguiram o exemplo e alcançaram a modernidade que, por questões sociais e políticas, ainda não permitiram que Paris tivesse uma quadra central com teto retrátil. Assim, para os mais conservadores, Roland Garros seguirá sendo o desafio a céu aberto.

O intrigante caso de Sharapova com a FFT
Por Chiquinho Leite Moreira
maio 17, 2017 às 6:24 pm

Um dia depois de a Federação Francesa de Tênis negar wild card para Maria Sharapova deu para reunir um número maior de informações, que colocam em dúvida o acerto ou erro na determinação. Um dos fatos mais intrigantes do recente anúncio refere-se ao discurso do presidente da entidade francesa. Se Bernard Giudicelli estava tão convicto de sua decisão, por que demorou tanto para tempo para divulgar? Criou suspense e expectativa por semanas e semanas. Disse estar embasado na opinião de que os convites podem ser dados para jogadores que estão voltando de lesões, nunca para quem veio de punição por doping. Ele também falou em “valores”. E neste aspecto surge, ao meu ver, uma contradição. O tenista francês Constant Lestienne ganhou WC para o qualifying de Roland Garros, depois de ter cumprido pena de sete meses por corrupção em apostas comprovadamente ilegais em 20 partidas. O dirigente afirmou que Lestienne pagou pelo seu erro. E Maria não pagou?

Há uma obscura situação para esta contradição. Bernard Giudicelli, nascido na Córsega (berço de Napoleão Bonaparte), ilha do Mediterrâneo a oeste da Itália, o que explica seu sobrenome, assumiu o cargo na Federação Francesa, em fevereiro, com a missão de apagar um incêndio. Seu antecessor, Jean Gachassin, não foi reeleito por estar envolvido na máfia dos ingressos para Roland Garros. O antigo dirigente está respondendo a processo. Casos de corrupção já vem de longe na entidade francesa. O ex-presidente Christian Bimes chegou a ser preso em fevereiro de 2009. Mais recentemente, o diretor do torneio Gilbert Ysen também foi afastado, sendo substituído por Guy Forget. O escândalo provocou outras mudanças como a troca de Arnauld Clement por Yannick Noah no comando da equipe da Copa Davis. E pelo que notei em alguns contatos com Paris muitos outros funcionários da Federação também foram afastados.

Os atuais dirigentes estão com um discurso afinado. Guy Forget ao ser perguntado sobre as ausências de Serena Williams e, agora, Maria Sharapova, disse que o torneio é maior do que os interesses das jogadoras.

Em meio a este cenário, Maria Sharapova parece ter sido vítima destes novos tempos da Federação Francesa. Mas a jogadora preferiu não criticar Roland Garros e escreveu no seu twitter : “If this is it takes to rise up again, then I am in it all the way, everyday. No words, games, or actions will ever stop me from reaching my own dream. And I have many”, disse a cinco vezes campeã de Grand Slam, sendo dois em Paris, com 30 anos de idade.

O outro lado da vida de Maria
Por Chiquinho Leite Moreira
maio 4, 2017 às 6:47 pm

Debaixo de críticas, em razão do wild card concedido a Maria Sharapova, o diretor do torneio de Madri, Gerard Tsobanian, justificou o convite com declarações contundentes. Disse que a tenista russa não é só uma jogadora, mas sim uma campeã. E que se trata de uma grande estrela com títulos importantes e, por isso, merece atenção especial. Concluiu afirmando que ela nasceu para competir e vencer.

Tsobanian fala com a autoridade de quem conhece o outro lado da história de Maria Sharapova. É um caminho diferente dos inúmeros títulos, dos fortes patrocínios e da glamorosa vida da beldade russa.

Particularmente já escrevi sobre estes detalhes pouco falados da vida de Sharapova no Estadão. Há muitos anos no torneio de Miami, comovida pelo seu sucesso na Flórida, ela abriu o coração e revelou como foram seus primeiros dias nos Estados Unidos. Um desafio e tanto, numa luta solitária e com  episódios quase diários de perseguição e  discriminação. O assunto rendeu uma reportagem de enorme repercussão na época. Foi uma surpresa ao público saber que ela tinha passado por tantas agruras na sua infância.

Voltei ao assunto no site do Bandsports, sob o título de a “vida de sacrifícios de Maria”. Segundo o então diretor do canal, Evandro Figueira, também uma reportagem com particular repercussão e interesse. Além, é claro, de muita gente boquiaberta com os fatos que envolveram a formação da tenista russa.

Vale a pena voltar ao tema, não para justificar os wild cards que Maria Sharapova recebeu em Stuttgart, ganhou em Madri e receberá em Roma. Isso já foi bem argumentado por Gerard Tsobania. Mas sim pelo lançamento do livro intitulado Unstoppable, em que a tenista revela fatos jamais respondidos em entrevistas, mas, sem dúvida, já bastante especulados pela mídia.

A figura que mais me marcou nos primeiros anos de Sharapova e que expus nas reportagens já divulgadas no Estadão e Bandsports foi dramática ao meu ver. Disse que assim como uma criança é abandonada em um cesto à porta de uma residência de uma família para ser criada, refletia a situação em que Sharapova foi levada a treinar na Academia de Nick Bollettieri. Mas o tom é ainda mais forte.

A cena descreve um pai e uma garota de apenas sete anos buscando um sonho. Os dois descem de um ônibus da famosa empresa americana Greyhound à porta da Academia de Nick Bollettieri na Flórida. Tocaram a campainha… ambos não falavam  inglês e tinham apenas 700 dólares no bolso. E assim deram início a louca aventura de Maria Sharapova, uma das maiores estrelas do tênis.

É muito intrigante como estas coisas acontecem no tênis feminino. A ex-número um do mundo, Martina Hingis, recebeu este nome em homenagem a Martina Navratilova. Da então Tchecoslováquia sua mãe mudou-se para a Suíça e transformou a filha numa grande estrela. Mais incrível ainda com Jennifer Capriati. Seu pai, Stefano, viajou com a esposa grávida para os Estados Unidos. A filha nasceu em solo americano e foi treinar com o pai de Chris Evert, como planejado, e Capriati também transformou-se numa excelente jogadora.

Maria Sharapova teve o mesmo destino. Dez anos depois de tocar a campainha na Nick Bollettieri, ela, aos 17, conquistou o título de Wimbledon, com vitória na final de 2004 sobre Serena Williams. Assim que terminou o jogo, a jovem campeã pegou um celular e ligou para sua mãe, Yelena, que sem conseguir visto americano ficou vários anos sem ver a filha. Conversou emocionada. Mas não se safou das primeiras críticas. Disseram que a ligação foi uma jogada de marketing. Afinal, alguns dias depois recebeu patrocínio de uma marca de celulares, que entre os seus tons de chamadas tinha um com os gritinhos em quadra de Maria Sharapova. Esta é a vida de quem faz sucesso…