O ano mágico de Guga, sob outro olhar
Por Chiquinho Leite Moreira
junho 19, 2017 às 8:29 pm

Antes tarde do que nunca. Aliás este texto já estava escrito em minha mente desde o dia 8, data do 20º aniversário da primeira conquista de Gustavo Kuerten em Roland Garros. Faltava apenas ‘put down in words’ como diz a música Your Song de Elton John. Já li, ouvi muitas histórias sobre este ano mágico de Guga em Paris. Mas decidi contar sob meu olhar, de repórter especializado em tênis.

Desde 1985 já frequentava Roland Garros, como enviado especial do jornal O Estado de S. Paulo. A cobertura ‘in loco’ de um torneio tão importante era revelada em histórias diárias, sempre com traços marcantes, diferente do que era feito por ‘telex’ ou hoje em dia pela Internet. As reportagens eram assinadas pela cor local, a visão direta e aguçadas por curiosidades de bastidores. Um bom produto, sem dúvida nenhuma.

A cobertura de 1997 começou com um detalhe dos mais interessantes contado carinhosamente no livro ‘Saibro Suor e Glória’ de autoria de Renato Maurício Prado, jornalista que também estava em Roland Garros naquele ano. Ele apareceu no complexo no dia da estreia de Guga. Só que Fernando Meligeni também estava em ação, diante de Javier Frana, justamente na quadra ao lado. Renato estranhou o fato de eu não estar acompanhando o jogo do Fininho, na época, o melhor brasileiro. Expliquei que Betão (ex-tenista brasileiro, Roberto Jábali) havia me contado que Kuerten estava jogando excepcionalmente bem. Solto e com fortes golpes de direita e esquerda. E, por isso, fiquei de olho nele. Era um desafio e tanto contra Slava Dosedel. Este adversário apresentava um estilo que complicava a vida do brasileiro, com golpes retos, pouco efeito e bons saques. Só que – nunca ninguém falou – mas sem tirar os méritos da vitória, Dosedel parece ter entrado em quadra apenas pelo ‘prize money’. Com nítido problema físico, não conseguia sacar direito e quis o destino que abrisse então as portas para a épica campanha de Guga Kuerten em 1997.

Enfim, Guga havia conseguido a primeira vitória em Roland Garros. No ano anterior, ele também tinha jogado a chave principal, mas não havia passado por Wayne Ferreira, em um jogo bastante equilibrado. Conheci Kuerten anos antes, em Wimbledon. Era um meninote e fui entrevistá-lo para boletins da Rádio Eldorado. Fiquei impressionado com sua desenvoltura ao falar. Sua mãe, Dona Alice, que também estava em Londres neste ano explicou-me que Larri Passos já o treinava e também o ensinava a como se comportar diante de um microfone. E não é que o meninote transformou-se num grande jogador e muito comunicativo!

A saga de Guga em Roland Garros daria um livro. Numa rápida passagem, a segunda rodada de 1997 foi para a quadra 3, que fez Larri chorar com as lembranças de quando treinava Andrea ‘Dadá’ Vieira. Veio uma vitória chave também, diante do sueco Jonas Bjorkmann. Na sequência Thomas Musters. Na manhã do jogo, cruzei com Pardal (Ricardo Acioly) na saída do hotel e ele disse categoricamente: “Guga vai ganhar”.

Depois veio Andrey Medvedev, num jogo que começou num dia e terminou no outro. Foi na quadra A, hoje Suzanne Lenglen. E Guga não poderia imaginar que tinha uma “falsa namorada” dele sentada ao meu lado e de Armando Nogueira. Várias histórias curiosas  marcaram os encontros com Evgeny Kafelnikov – na época conhecido como a metralhadora Kalashikov – com Filip Dewulf, hoje meu colega, e a final com Sergi Brugera. Ventava tanto naquele 8 de junho de 1997, que minha lente de contato saiu do olho e não vi o match point.

 

 


Comentários
    1. Chiquinho Leite Moreira

      Estive muito ocupado durante RG… então só fiz mesmo um registro. Não deu para escrever antes.

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